SOPA brasileira, quem quer?

Prometi pra mim mesmo que não publicaria mais "peças de opinião" no blog, pois tenho uma forte suspeita de que ninguém quer saber a minha opinião sobre muita coisa (e o Google Analytics parece corroborar minha tese), mas azar, não resisto. Esse papo todo de SOPA, PIPA, papa e afins no tal do Internet Blackout Day me deixou pensativo sobre como seria uma manifestação dessa natureza aqui na Brasilândia. Primeiro, um pouco de contexto para os incautos: ontem, dezenove de janeiro de 2012, foi o Internet Blackout Day, o dia em que toda a Internet (ou pelo menos a internet estadunidense) tomaria ações para protestar contra a legislação que está para ser votada nos EUA a respeito de controle da pirataria online, os famos atos SOPA e PIPA. Não focarei nos específicos da legislação em si, que é bastante nojentinha tanto do ponto de vista técnico (bloquear domínios nos servidores DNS gera uma bagunça danada, e o pessoal mais espertinho ia acabar usando servidores DNS "piratas" de fora dos EUA criando uma vulnerabilidade de segurança gigante) quanto jurídico (um site inteiro pode ser bloqueado sem processo porque alguém colocou um link lá apontando pra algum material sem a devida autorização por escrito com cópia autenticada em três vias protocolada em cartório do detentor dos direitos autorais - quanto tempo dura uma rede social com essas regras?). O que quero propor aqui é um Gedankenexperiment (como já passou do dia 19, a Wikipedia está com as portas abertas novamente para explicar o termo) de como seria uma situação dessas aqui no Brasil. Nós brasileiros temos uma habilidade incomum para reagir vorazmente a temas muito importantes na ordem mundial. Vide a quantidade de trending topics emplacados no Twitter nos últimos tempo como o #forasarney, #calabocagalvao, e agora mais recentemente esse papo da Luiza que não sei mais por onde anda. Porém, quando se trata de ação efetiva, do tipo que envolve tirar a bunda da cadeira, geralmente preferimos apelar pro off-shoring. Especificamente no caso do #forasarney, lembro que o mais próximo que se chegou de alguma ação foi pedir pro @aplusk se manifestar a respeito, algo que ele muito sabiamente não fez uma vez que não faz a menor idéia quem seja Sarney. Imagino que o senador imortal morreria de medo se um ator de Hollywood pedisse pra ele abandonar a sua cadeira. Voltando ao caso específico do Internet Blackout Day. Vários dos sites de maior tráfego do mundo tomaram medidas concretas para participar do movimento. O Google colocou uma grande tarja preta sobre o seu logo linkada a uma página especial explicando a legislação proposta e porque ela é ruim. A Wikipedia foi mais radical ainda, exibindo uma tela preta com um parágrafo sobre a legislação bloqueando completamente o acesso ao seu conteúdo. Diversos sites adotaram as mais variadas estratégias de protesto, variando do "blackout" total a la Wikipedia, a uma simples troca de logo trazendo atenção para o tema. O fato é que era bem difícil usar a internet ontem sem encontrar alguma manifestação a respeito do tema. Vamos à realidade brasileira: dos 10 sites de maior tráfego do país (segundo o alexa.com), apenas o UOL (quinto lugar) e o Globo.com (sétimo) pertencem a empresas brasileiras. Dos demais, cinco são da Google (!), os outros sendo Facebook (segundo lugar), Windows Live (sexto) e  Yahoo (décimo). Se nos restringirmos aos players nacionais, imediatamente excluímos a maior parte do nosso tráfego de navegação online. Não faço idéia como o UOL se comportaria numa situação dessas, mas imaginar que a Globo fosse se manifestar contra de alguma forma seria como imaginar que o Rupert Murdoch, um dos principais apoiadores e financiadores das propostas americanas e dono de vários jornais e canais de TV, algo como um Roberto Marinho globalizado, virasse a casaca e fizesse comício em praça pública contra a legislação. Assim, já eliminamos a possiblidade dos principais sites do Brasil se interessarem pelos nossos protestos imaginários. Vamos então às manifestações espontâneas dos internautas, mas aqui a argumentação não vai muito longe. Basta dar uma olhadinha no seu timeline no Facebook e ver as imagens que o pessoal compartilha, e os tópicos abordados, para se ter uma idéia. Duvido que alguém mova uma palha a respeito. Agora, trazendo a nossa divagação de volta a realidade. Sabia que o ilustre senador Eduardo Azeredo já propôs um projeto de lei para "dar mais segurança aos internautas" que tem várias semelhanças com a lei americana? Esse projeto foi derrubado em uma das comissões do Senado, não lembro qual agora, mas qualquer dia desses ele volta. Imagina se isso chega às "vias de fato", algo que não é difícil de conceber. Será que a gente consegue reagir como reagiram os americanos à SOPA? Um trending topic no Twitter tenho certeza que se consegue - já ação efetiva, acho beeeem mais difícil...